“Sim. Eu entendi. É assim que se faz. Temos que nos apossar das mulheres. Romper sua resistência. Só assim exploramos o desejo que tudo devasta, o desejo que a natureza nos propiciou.” Há horror em retornar a um lar que não existe mais. É mórbido tentar retornar em memória a um lugar que já não a aguarda de braços abertos, e que, você descobrirá, jamais existiu da forma que imaginou. Que o afeto transcendental de gerações, dos laços familiares e amistosos sejam tão facilmente derretidos com uma gota de ódio ou inveja. E mesmo em tentativas vãs de retornar ao passado, falar com os mortos, ou clamar a eles, o seu destino reside no caminho que você traçou, entende? Você pode desejar se agarrar às amarras que haviam lhe sido impostas, e das quais você acreditou, ingenuamente, ter se libertado. Mas não se preocupe, Medeia. A memória de uma vida que não existe mais se esconde nas lacunas do ser, e, ao tentar procurá-la, você verá que sua verdade já foi narrada pelos poderosos, ela jamais poderia conceber a sua existência.

Medeia foi retratada no mito popular em sua pior versão, com todos os arquétipos de uma antagonista mitológica perfeita; uma bruxa, assassina e traidora. De uma forma tradicional que é vista em outras figuras femininas da mitologia, como Cassandra e Medusa, a história de Medeia por séculos foi unilateral, uma narrativa escrita pelos vencedores. Mas dentro de sua versão, Christa Wolf consegue trazer uma perspectiva diferente a essa personagem e sua história, revelando uma nova visão acerca dos fatos e mostrando ao leitor o passo a passo de como ficou conhecida como Medeia, a vilã.
Essa nova Medeia constantemente se dissocia da situação em que se encontra em Corinto por uma mistura de culpa e de ódio, algo que fica evidente nos seus capítulos homônimos em que, durante seus fluxos de consciência, se dirige a pessoas que (na maioria das vezes) não estão mais presentes em sua vida, como sua mãe e seu irmão Apsirto. Essas passagens não só demonstram a solidão de Medeia, mas também criam um vínculo significativo com o leitor, pois os questionamentos que ela traz tratam do seu passado e de situações que estão acontecendo simultaneamente na narrativa, fazendo com que tenhamos as mesmas dúvidas que ela, criando uma aproximação maior durante a leitura.
Christa consegue construir uma personagem extremamente tátil e comovente, que não se curva perante a sociedade patriarcal de Corinto. Ela se mantém leal aos seus princípios trazidos da Cólquida e às suas raízes culturais, o que fica evidente pela forma com que ela se carrega com um orgulho único, sem se afetar ou se deixar calar perante a rispidez de Jasão ou as ameaças de Agámeda. Até a forma como usa seu cabelo, crespo e solto, é uma representação da sua resistência aos costumes de Corinto: “Não deixei a Cólquida para me rebaixar aqui, é assim que ela fala, e não prende aquele cabelo indomável como o fazem as mulheres em Corinto após o casamento, e ainda diz: E daí? Você não me acha mais bonita assim? Mulher arredia.”
A personalidade forte e combativa de Medeia existe na narrativa como um símbolo de resistência à alienação que os colquidianos sofrem em Corinto. E é a partir dessa disrupção que Medeia cria em seu entorno que a obra cria paralelos entre os outros personagens, principalmente, com as figuras femininas.
Medeia, Agámeda e Creúsa são construídas como reflexos umas das outras, todas elas enquanto mulheres são oprimidas dentro da sociedade em que vivem, mas cada uma delas lida com seu papel de forma distinta. Medeia não se encaixa nas relações de poder em Corinto, justamente por se posicionar vocalmente contra as injustiças sociais e por constantemente desafiar homens como Jasão e Acamante, o que a deixa muito vulnerável para ameaças e acusações. Já Agámeda representa outro tipo de influência patriarcal. Ela também tem suas críticas aos comportamentos políticos de Corinto, mas, ao contrário de sua ex-tutora, ela sabe se adequar ao que esperam dela, entendendo seu papel social e utilizando seus atributos como inteligência e habilidades de cura para conseguir o que quer. Um bom exemplo disso é quando ela vai consultar Acamante com Présbon: apesar de reclamar sobre o fato de que em Corinto os homens sempre devem falar antes das mulheres, ela faz um comentário crítico a Medeia — que alguém que se diz tão perfeito e irrepreensível como Medeia é porque deve haver uma mácula em algum lugar —, coisa que Acamante acha admirável. Então, apesar de carregar consigo os laços culturais da Cólquida, ela se vale apenas do que acredita que lhe será útil, como aplicar uma prática medicinal que os coríntios chamam de barbárie para tratar a filha do rei, ou diminuir a relevância do seu lar ao dizer que o palácio era feito de madeira. Agámeda rapidamente percebe o que será benéfico para ela, e o que ficará em seu caminho; por esse motivo, ela enxerga sua antiga terra natal como algo a ser superado e passa a nutrir uma espécie de ressentimento por aquela terra, algo que também transparece em sua relação com Medeia. Ela não entende o motivo dos outros imigrantes se apegarem à ideia de um lugar que não existe mais e que não a favoreceu. Medeia se prende à Cólquida enquanto Agámeda se aliena dessa memória, ambas tentando sobreviver, e se para isso Agámeda precisar acusar sua antiga mentora de assassinato, que assim seja.
Creúsa se distingue um pouco já que entre as três ela é a única que não é imigrante, e sim filha do rei, mas a opressão que sofre, apesar de pertencer à realeza, é igualmente cruel. Nos capítulos anteriores Creúsa existe como uma personagem onipresente de fundo; nós lemos descrições detalhadas de suas convulsões, algo como uma distração em meio ao fluxo de consciência dos outros personagens. Porém, em seu capítulo, vemos que Creúsa não tem a opção de escapar das estruturas de poder. Ela nasceu dentro de uma sociedade construída sobre o apagamento e, como a própria Corinto, acaba sendo consumida pelos segredos e injustiças, como sua irmã morta cuja ossada está encravada na parede de um túnel no palácio.
Nesse sentido, Creúsa funciona quase como o contraponto perfeito das personagens femininas de Medeia: se Medeia é a mulher que lembra demais, e Agámeda a que quer esquecer, Creúsa é a mulher a quem nunca foi permitido lembrar. Ela vive em uma linha tênue entre não desafiar o passado e aceitar a realidade, o que afeta a forma como se relaciona com Medeia, chamando-a de bruxa quando ela tenta fazê-la lembrar-se da infância, criando uma dinâmica interessante entre as narradoras femininas.
Já em relação às figuras masculinas, vemos uma forma de ironização, em que muitas vezes essas figuras são tratadas como mais limitadas e imaturas. À primeira vista, isso gera uma estranheza. Passamos de momentos reflexivos, questionamentos morais e histórias de sofrimento para, por exemplo, Jasão referindo-se a si mesmo na terceira pessoa, o que destoa totalmente da figura heroica que temos dele pelo mito, onde é líder dos argonautas. Aqui ele se torna incisivo e patético, e se mostra inteiramente intimidado pela coragem de Medeia, usando-a para conseguir o velocino de ouro e depois se afastando dela para não perder seu status junto ao rei. Fica claro que Christa faz de seus homens figuras profundamente limitadas, frágeis e, sobretudo, alienadas das próprias emoções e da violência que produzem. Por estarem em uma posição social vantajosa, tudo o que pode ser desconfortável ou até fatal para as mulheres, tanto da Cólquida quanto de Corinto, passa despercebido por eles ou até é planejado como uma manobra política friamente calculada. Por exemplo, ambos os reis dos dois reinos mencionados acima se entendem ameaçados por uma questão invisível e não se importam de sacrificar os próprios filhos pelo poder.
Ainda assim, alguns dos homens da narrativa fogem um pouco dessa unilateralidade, possuindo mais camadas e fugindo da lógica de Corinto, mesmo que isso lhes traga sofrimento. Esse é o caso de Lêucon, um dos personagens que tem mais empatia e cordialidade com Medeia. Ele não concordava com as tradições e o modo de agir dos coríntios, por isso preferia a companhia de pessoas que moravam nas periferias da cidade. Ele também continua próximo de Medeia, e chega a dar conselhos para ela quando está próxima de ser condenada, dizendo: “Sabe qual é a única coisa que teria ajudado? […] Seria se você tivesse se tornado invisível, como eu e Aretusa. Uma existência oculta, sem falar, sem se expressar, então, toleram você.” Essa frase condensa pela voz de Lêucon tudo o que Christa Wolf diz sobre Medeia e a experiência feminina na modernidade, pois está mostrando que esta foi perseguida por “aparecer demais”, e Corinto nunca aceitaria alguém que vai contra o status social já estabelecido.
Christa retrata a experiência e a opressão femininas de forma extremamente atual, fazendo com que as leitoras mulheres possam se identificar com Medeia e seus pensamentos. Talvez por isso Medeia: Vozes seja uma leitura dolorosa, pois sua história reverbera em dores coletivas. Não apenas porque Medeia perde Jasão, seus filhos ou sua posição social, mas porque ela descobre, progressivamente, que não existe retorno possível. Não existe retorno à Cólquida, que já não é mais a terra que deixou. Não existe retorno à mãe, à ancestralidade feminina ou à comunidade de mulheres da qual acreditava fazer parte. Não existe retorno ao amor, nem mesmo à própria narrativa, já escrita por outros antes que ela pudesse contá-la. Assim como em Cassandra, Christa Wolf recupera não apenas mulheres vilanizadas pela história, mas também maneiras de existir que foram derrotadas e transformadas em barbárie. Corinto vence porque consegue fazer com que suas vítimas participem do próprio apagamento, tolerando apenas aqueles que aceitam a invisibilidade. Medeia fracassa porque não consegue deixar de ser. E, no fim, ela e todas as Colcas de Corinto deixam de existir ou se transformam naquilo que queriam delas, vilãs selvagens. Essa é a maior tragédia da obra e, ao mesmo tempo, sua maior força: uma mulher que tenta permanecer visível em um mundo que exige seu desaparecimento.
Na leitura de Christa, Medeia está retornando para contar sua história e agora ela diz:
“Sou Medeia, a feiticeira, se é isso o que vocês querem. A selvagem, a estrangeira. Não permitirei que me rebaixem.”
O texto foi escrito por Clara Maas, estudante de letras na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas.

Muito bom o texto, lembro de ler sobre o mito clássico e achei interessante essa possibilidade de reimaginar o passado
Bom texto e ótima recomendação para quem gosta de mitologia