“A Odisseia”, de Christopher Nolan, vem conquistando o público e quebrando recordes nas bilheterias internacionais, superando “Deadpool & Wolverine” — a adaptação se tornou o filme de classificação adulta de maior bilheteria da história dos EUA. A adaptação do poema épico atribuído a Homero levou a jornada de Odisseu para as telas em uma produção grandiosa, reacendendo o interesse pelos grandes mitos. Mas, enquanto acompanhamos a longa viagem de Odisseu de volta a Ítaca, existe outra história acontecendo em casa: a história de Penélope.
Durante os anos em que Odisseu está longe, Penélope permanece em Ítaca, cercada por homens que desejam ocupar o lugar do marido, e é constantemente pressionada se casar novamente. Mas quem era Penélope, a mulher além da longa espera?
Na Odisseia, ela também é uma mulher inteligente, estrategista e capaz de encontrar maneiras de resistir às pressões que recaem sobre ela. Sua famosa estratégia de tecer e desfazer uma mortalha durante a noite é uma forma de ganhar tempo e preservar sua autonomia.
Penélope não é a única mulher cuja história atravessa os grandes mitos gregos, e cada uma delas foi transformada, ao longo dos séculos, em diferentes símbolos: a esposa fiel, a mulher perigosa, a sedutora, a feiticeira, a estrangeira.
Mas o que acontece quando deixamos de olhar para essas personagens apenas a partir da trajetória dos heróis?
É justamente isso que torna “Medeia: Vozes”, de Christa Wolf, uma leitura tão provocadora.
Em seu romance “Medeia: Vozes”, a escritora, ensaísta e crítica literária alemã Christa Wolf faz uma recriação desse mito ancestral, trazendo uma discussão sobre a condição feminina, capaz de se rebelar contra a opressão (por vezes velada) do status quo masculinista.
A Medeia de Christa Wolf é portanto a personificação de questões políticas e de gênero que sempre caracterizaram sua produção literária e que a transformaram numa voz feminina incomparável no universo das letras germânicas.
Na versão de Christa Wolf, Medeia é muito mais do que a figura da mulher vingadora que atravessou a tradição. Vemos aqui o retrato de uma mulher libertina e voluptuosa, cuja personalidade inquisidora e franca faz um contraponto à timidez e à submissão próprias das mulheres de Corinto, o lugar onde Jasão e Medeia tentam criar raízes. Em meio a intrigas, calúnias e mentiras, ela descobre o segredo nefasto que o rei Creonte tenta ocultar e se recusa a compactuar com a mentira. A partir daí, torna-se uma ameaça para aqueles que precisam preservar a ordem estabelecida.
Abandonada por Jasão e transformada em bruxa, assassina e estrangeira perigosa, Medeia passa a ocupar o lugar de bode expiatório. Christa Wolf desloca, assim, o foco da personagem e nos convida a olhar para Medeia para além da imagem que atravessou os séculos.
A Estação Liberdade fica particularmente feliz de veicular esta exímia tradução de Carla Bessa, ela mesma talentosa escritora há tempos residente em Berlim, mas muito ativa no Brasil igualmente. Traduzir Christa Wolf é um desafio sempre! Carla Bessa, que já traduziu pela Estação Liberdade “Malina”, de Ingeborg Bachmann, também é autora de ficção, com destaque para o livro de contos “Urubus”, vencedor do Prêmio Jabuti.
O filme “A Odisseia”, de Christopher Nolan, e o livro “Medeia: Vozes”, de Christa Wolf (trad. Carla Bessa), são duas recomendações para quem quer se aproximar dos grandes mitos gregos e observar diferentes perspectivas.

