Uma (quase) carta a Yoshimoto Banana
Se minha memória não me prega peças – algo que, geralmente, é a regra -, esta história tem seu início há quase dez anos, em que uma pessoa já não mais existente – até mesmo no nível celular – pegava uma cópia de The Lake (Mizuumi, tradução feita por Michael Emmerich) para ler. Naquele cenário, uma pessoa frustrada com sua formação profissional buscava outros caminhos e, tendo no plano de carreira a vontade de seguir estudando literatura, via, ali, naquelas linhas, uma possibilidade, uma chance, uma vontade de…
… Mas, se fosse dar certo… seria necessário aprender uma língua nova… Seria possível?
Tanto seria, quanto foi.
Ressalto que, quase dez anos depois, muita coisa se encontra completamente diferente e, tudo isso, de certa forma, também se torna possível pelos diversos momentos em que, sozinhe, com o apoio de meu leitor digital, ou dos livros físicos de Yoshimoto Banana que colecionei em minha primeira estadia no Japão, pude me debruçar nos escritos da autora, entendendo como, a partir desse contato sempre único e, por isso, sempre diferente, acabei criando quase uma relação parassocial com tudo o que lia. Era como se, enquanto me descobria, reconhecia nas palavras de outra pessoa um mundo todo que, ao mesmo tempo, acontecia em mim e acontecia no mundo.
Kitchen fora um desses momentos em que meu encanto pela prosa de Yoshimoto floresceu – mas a percepção disso se deu muitos, muitos anos depois, quando, já com a tradução pronta, graças a um período de pesquisa no fim da graduação, pude, com a parceria de Lica Hashimoto e Lui Navarro, passar horas e horas discutindo, relendo e… comendo muito katsudon. A pequena família que ali se criava com um objetivo acabou se tornando uma parceria que me fez, inclusive, passar pela pandemia de Covid-19 com um alento, um acalanto, quando das reuniões on-line para a continuação das revisões e aprofundamento de um trabalho que estava terminado. Anos depois, com a acolhida desse trabalho pela Estação Liberdade, revisitar todo esse trajeto é também reconhecer algo que Joy Nascimento Afonso – a autora do texto de orelha para a versão brasileira de Kitchen e professora doutora de Literatura Japonesa na Unesp -, diz em diversos de seus textos sobre Yoshimoto – e, caso você que me lê não conheça o trabalho de Joy-sensei, o que você está esperando?
Destaco um pedaço de sua tese, intitulada Entre memória e viagem, tradição e contemporaneidade – uma leitura de América Latina: Traição e outras viagens (Furin To Nanbei), de Banana Yoshimoto (Assis, 2022); lá, diz Afonso:
A coletânea de contos é a releitura de dois gêneros literários: o diário e as narrativas de viagem, tornando-se a soma da voz intimista feminina a uma mobilidade antes só dada aos homens. Nesse diário construído na narração de sete vozes femininas, que talvez se cruzem nas ruas de Buenos Aires, viajar e transitar em espaço estrangeiro difere do espaço fixo das damas da Corte, e as memórias que surgem à medida que as narradoras caminham e se deparam com o novo provam que a literatura confessional e intimista permanece presente na contemporaneidade. Dito isso, a coletânea de contos América Latina: traição e outras viagens é a recriação contemporânea dos diários clássicos femininos, em que memória e espaço dialogam, propondo reflexões sociais sobre a sua própria cultura e a do outro. No encontro das duas culturas, espaços, lembranças e vozes, a escrita torna-se reescrita de suas próprias histórias, uma reinterpretação do feminino. (Afonso, 2022, p. 217)
As obras, tanto as de Yoshimoto quanto as de Afonso, interpelam quem lê em um mergulho na possibilidade da transformação e no reconhecimento de que quem fala imprime um certo senso diferente na realidade. Essa sensação, no processo de leitura, também me transformava e me ajudava a tentar entender, afinal, o que é que sentia de diferente toda vez que lia Yoshimoto Banana, assim como outras autoras que já apareceram no Brasil, como Murata Sayaka, Kawakami Mieko e Tawada Yōko, e o porquê dessa escrita cujo processo e impressão no texto reforçavam a importância da transformação do mundo, seja em uma escala individual ou social – e, lembrando, que um há de influenciar o outro! – me tocavam tanto.
Ao traduzir o processo de enlutamento e enfrentamento de uma realidade transfóbica nos fins dos anos 1980, ao relatar uma vida e um olhar carinhoso para o processo tão excludente que pessoas fora do binarismo de gênero enfrentam, pude acompanhar, em Kitchen II – Lua Cheia, algo que, anos depois, seria o meu processo de entendimento enquanto pessoa não-binária. Ainda que termo um tanto divergente a depender do olhar, a minha constituição enquanto ser também desafia(va) o olhar e o entendimento que se quer não-etapista para a elaboração do que é ser e existir e, para além, ter o direito de ser quem se é sem que se dependa de algo como a Biologia ou o Olhar do Outro. Traduzir e ler a história de Eriko também era repensar e refletir profundamente sobre o que sentia não após a tradução, mas sim em algo que sempre esteve lá, reprimido, escondido, subjugado pelas impressões de códigos socialmente impostos que minguam nossas liberdades de sermos quem quisermos, independentemente de o quê é carregado em um nome.
Ainda que muito tenha mudado, tanto em mim, quanto no mundo, Kitchen continuou sendo presente em minha vida enquanto também continuei acompanhando o trabalho de Yoshimoto como alguém que se transforma, alguém que demonstra, em si e por si, que o tempo passa, as prioridades se realocam, tudo se transforma. É na beleza de sua prosa e de sua carreira que vemos o tempo passar e a exigência de ali também reconhecermos a necessidade de nos permitirmos (e sonharmos a) ver um mundo aqui, no agora, nascer para que as pressões às quais somos subjulgades não sejam as únicas coisas que destacaremos em nosso processo de existência. Não há só felicidade e sofrimento no mundo. Não há só ou um ou outro.
Talvez, assim, não seja eu a tradutore mais engraçada ou fácil de ser ouvide, dado que até aqui alguém pode, em um cochilo ou bocejo, não entender para onde estamos indo enquanto estamos falando do processo tradutológico e daquilo que continua vivendo, em mim e comigo, como um rastro desse início. Mas, ainda assim, se estamos aqui, se estamos falando algo em torno de Kitchen, é porque estivemos o tempo todo falando daquilo que também constituiu a minha chegada, o meio e a partida daquilo que ganha sobrevida e sobrevivência a partir da tradução de todo um time (eu, Lui Navarro e Lica Hashimoto), cujo corpo textual recebe o abraço da orelha assinada por Joy Nascimento Afonso. O processo de escritura desse texto só é possível por isso. A sobrevida da tradução só pode ser aquilo que, de certa forma, não seria eu a pessoa responsável por dizer… ainda que me sobre, sempre, muito a ainda ser dito por e para Yoshimoto Banana.
Estabelecer qualquer linha de limite entre o porquê de ler ou não, o porquê de se aproximar ou não do livro, talvez, acabe perdendo um pouco até mesmo da proximidade possível que eu, tanto como pessoa que traduziu, mas, antes, como pessoa que leu o texto mais de uma vez, em mais de uma língua antes mesmo daquela que chamo de minha, criou ao longo desses anos e, dado que Yoshimoto tem uma longeva produtividade a ainda ser explorada, continuará criando; só seria possível, assim, dizer: boa leitura.
Como acredito ser a possibilidade de qualquer diálogo, o que me resta, agora, como pessoa intermediária entre o original e as novas pessoas que lerão o livro, só posso dizer que seguirei aqui, agora abraçade com a minha cópia em português, esperando que vocês aí se aproximem de nós.
Um abraço
Fabio
(Ah, e feliz aniversário, Yoshimoto-san!)

