O sofrimento descrito com sensibilidade
Karen Kazue Kawana
Estava prestes a entrar em meu último ano de doutorado e tentava me concentrar em escrever a tese quando recebi a proposta para traduzir o romance Yūjokō, título que traduzi como Mulher de prazer, de Kiyoko Murata, uma escritora de que nunca tinha ouvido falar até então. (Na verdade, ninguém que eu conhecia tinha.) Fiz uma pesquisa rápida e descobri que ela já escrevia desde os anos 1970 e havia ganhado praticamente todos os grandes prêmios literários do Japão. E um de seus livros havia servido de roteiro para o filme Rapsódia em agosto, de Akira Kurosawa! Já Mulher de prazer narrava a história de Ichi Aoi, uma garota vendida para um bordel para se tornar uma cortesã, e seu amadurecimento em um ambiente de exploração sexual. Então, apesar do cansaço e das demandas da vida acadêmica e de outros projetos, eu soube imediatamente que não podia recusar essa tradução, afinal, o livro tratava de meu tema de pesquisa na época: as escritoras e as figuras femininas na literatura japonesa.
Foram meses dedicando algumas horas do dia a traduzir o livro e as noites à tese. Me considero uma tradutora lenta, gosto de olhar dicionários, tanto na língua original quanto em português, para tentar encontrar a palavra que melhor preserve o sentido do original e funcione em português, uma tarefa que, muitas vezes, é ingrata. Ao longo da tradução, fui sendo cativada por Ichi, a garota selvagem trazida de uma ilha onde as mulheres exercem a atividade de ama, mergulhando no mar para pescar e coletar moluscos. Ichi sofre diversos tipos de violência no distrito de prazeres onde vive confinada, mas encontra forças na amizade com outras mulheres: as colegas do bordel, a oiran Shinonome e a professora da Escola das Mulheres do Ofício, Tetsuko.
Achei comovente observar o progresso de Ichi ao longo do livro. Ele se reflete nas entradas de diário nas quais escreve suas reflexões. No começo, ela mal consegue falar direito, sua escrita é vacilante, mas, ao final, já é capaz de expressar seus pensamentos de modo simples, mas muito perspicaz. Acho que tentar mostrar essa evolução de Ichi foi um dos grandes desafios desse trabalho. Tentei preservar a acuidade e a sensibilidade de suas observações, feitas com imagens e palavras singelas, e sua poesia, sem soar banal. Espero ter sido bem-sucedida nisso.
Kiyoko Murata também foi uma descoberta para mim, como mencionei na minha “Nota da tradutora”, que é mais uma nota de fã; ela é uma grande contadora de histórias e conseguiu escrever sobre um assunto brutal com muita delicadeza. Fiquei me perguntando por que raios ela só foi descoberta por aqui agora. Yūjokō foi publicado em 2013 no Japão. A primeira tradução para o inglês, de Juliet Winters Carpenter (falecida este ano, a quem presto minha homenagem), foi publicada em 2024.
A história é baseada em uma greve das mulheres que trabalhavam em um bordel de Kumamoto que realmente ocorreu, e Kiyoko Murata realizou pesquisas sobre a vida das prostitutas nos distritos de prazeres do período Meiji, o que torna a obra muito informativa. Ela mistura diferentes estilos textuais, dialetos e vozes narrativas ao longo do romance. Sei que houve perdas em relação à riqueza linguística do original em minha tradução, sempre há, mas prefiro acreditar que foram sacrifícios necessários para sua legibilidade. De qualquer forma, a história, por si só, é comovente e narrada com grande virtuosidade. Gosto muito da maneira como cada capítulo é arrematado com imagens impactantes.
A crítica e teórica Gayatri Spivak escreve que a “tradução é a forma mais íntima de leitura”, e concordo. Apesar de me conhecer como leitora desde muito jovem, foi traduzindo que realmente pude observar como cada autor e autora elabora seus textos, pois a tradução requer um olhar diferente daquele de quem apenas frui a leitura. Sei que soa masoquista, mas traduzir é um desafio, uma tortura, mas também um deleite. Especialmente quando se trata de uma obra como Mulher de prazer. Tanto por sua temática quanto pela qualidade de sua escrita, me senti honrada pela oportunidade de traduzi-la. Suas personagens têm um lugar especial em meu coração.
Não sei quanto tempo a profissão de tradutor(a) tem pela frente após o advento das IAs, mas gostaria de acreditar que, em um mundo cada vez mais desumanizado, traduzir obras literárias, que tratam de experiências e sentimentos humanos, continuará a ser um trabalho feito por pessoas de carne e osso, apesar de saber que isso soa ingênuo.


Olá!
Muito legal o relato da Karen 🙂
Espero que mesmo com a IA essa profissão não seja desvalorizada pois precisamos desse lado humano noa livros, que aparecem nas traduções mesmo 🙂
Agora também estou ansioso para conhecer a obra de Kiyoko Murata
Abraços