Gustavo Katague
No panorama da literatura mundial, a obra de Banana Yoshimoto mantém uma surpreendente e persistente ressonância, transcendendo gerações e fronteiras culturais. Desde sua rápida ascensão no final da década de 1980, impulsionada principalmente pelo sucesso de Kitchen (1988), Yoshimoto se consolidou não apenas como um fenômeno literário no Japão, mas como uma voz universal cujas temáticas — entre elas, a solidão urbana, a busca por conexão, o luto e a delicadeza das relações humanas — continuam a cativar leitores e críticos da atualidade, talvez oferecendo uma forma de identificação e conforto à ansiedade que pulsa nas gerações mais novas. Sua capacidade de infundir um lirismo melancólico em narrativas cotidianas e os toques de realismo mágico asseguram em seus livros passagens prontas para ser descobertas por novos leitores.
No Brasil, podemos verificar a relevância desta autora, cuja carreira se iniciou há mais de 30 anos, ao encontrar diversos artigos acadêmicos consideravelmente recentes dedicados a analisar sua obra, em grande parte publicados por Joy Nascimento Afonso, professora e pesquisadora no Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Ciências e Letras (Unesp-Assis), que inclusive assina o texto de orelha da nossa edição de Kitchen, traduzida diretamente do japonês. Em sua tese de doutorado (2022), a pesquisadora ressalta o caráter atual da escrita de Yoshimoto, que “trata de assuntos contemporâneos às mulheres de nosso tempo, enquanto combina e relaciona a visão moderna dos contos ocidentais, valendo-se da fluidez das memórias que não desprezam uma tradição, mas a atualizam”. Não somente em meios acadêmicos mas também no contexto midiático, temos, publicada na revista Quatro cinco um em 2024, a resenha de Fabiane Secches sobre o livro Doce Amanhã (Estação Liberdade, 2023).
Já no Japão, recentemente a autora se tornou assunto em jornais de grande circulação, como o Asahi, o Mainichi e o Yomiuri, por conta de uma delicada questão relacionada à autoria de um livro digital publicado sob seu nome, mas que ela afirma não ter escrito. Em fevereiro de 2025, Yoshimoto endereçou mensagens ao público em suas redes sociais, pedindo para que o título Sekai ni wa jikan ga nai 世界には時間がない (“No mundo, não há tempo”, trad. livre) não fosse comprado por não ser de sua autoria e afirmando que tomaria medidas legais. Posteriormente, ela comemorou a retirada do e-book das plataformas de venda online. Apesar da inconveniência causada, o caso ressalta a potência do nome da autora.
Agora, falando dos livros que Yoshimoto de fato escreveu, em maio de 2025 recebemos aqui na editora, como cortesia da agência que a representa, um exemplar do livro Yoshimotoono ヨシモトオノ, uma seleção de releituras de belas “histórias sobrenaturais” (ou kaidan 怪談), em cujo título há um trocadilho com o nome da obra Toono Monogatari 遠野物語, uma antologia de lendas e mitos publicada por Kunio Yanagita em 1910.
Há, naturalmente, uma gama de livros de Yoshimoto ainda não traduzidos e que certamente teriam um espaço reservado na estante dos leitores brasileiros, principalmente daqueles que se sentem cativados pela literatura japonesa. Da nossa parte, já estamos preparados para o próximo. 😉
