Sayaka Murata
Tradução de Rita Kohl
Querida Loja de Conveniência,
Permita que eu dispense os cumprimentos formais. Já faz dezessete anos que te conheci,
mas é a primeira vez que te escrevo uma carta assim.
Quando nos conhecemos eu tinha dezoito anos. Naquela época, eu te achava uma
pessoa muito assustadora. Sentia que você pertencia ao mundo dos adultos e pensava que
logo seria enxotada do seu lado. Ficava muito nervosa quando ia te encontrar e sempre levava
no bolso um caderninho, no qual anotava meticulosamente cada detalhe que identificava dos
seus gestos e manias.
Acho que nem eu nem você saberíamos dizer quando é que nossa relação deixou de ser
assim e nos tornamos amantes, não é? Se eu precisasse escolher algum momento, seria aquela
noite em que passamos juntas, pela primeira vez, às duas horas da madrugada… Naquele dia
outra pessoa precisou faltar de última hora e me imploraram para que eu continuasse dentro
de você até mais tarde. Eu, que sempre te encontrava de dia ou ao entardecer, senti meu
coração bater mais forte ao respirar o perfume da noite de verão que preenchia o seu interior.
Quando estava indo embora, de repente eu quis ver você ficar sem jeito, então
perguntei: “Você acha que seres humanos e lojas de conveniência podem fazer sexo?”
Achei que você ficaria corada ou constrangida, porém você respondeu sem se abalar:
“Que pergunta! Pois já não estamos fazendo? Você entra dentro de mim todos os dias.”
Talvez a gente tenha começado a namorar na hora em que você disse, séria, essas
palavras.
Depois disso, eu comecei a me arrumar para ir te ver. Não era mais um compromisso de
trabalho, era um encontro romântico. Você também passou a me receber um pouco mais
vaidosa, com as prateleiras de revistas organizadas e os espelhos brilhando.
Pensando direito, por essa lógica você também estaria fazendo sexo com o senhor que
trabalha no turno da noite, e com o casal de gerentes, e com as centenas de clientes que
entram e saem da loja todos os dias. Mas você diz, como se fosse óbvio: “Imagina, você é a
única com quem já fiz isso!” Então acho que, para você, deve ter alguma diferença.
Deve ter sido uns três anos depois que nos conhecemos. Me contaram, de repente, que
você iria morrer dali a um mês.
Fiquei tão surpresa que perdi a fala. Nunca imaginei que lojas de conveniência
pudessem morrer depois de apenas três anos.
Mas você morreu mesmo. Nos dois últimos dias antes disso, todas as coisas no seu
interior ficaram por metade do preço e uma multidão de pessoas te invadiu para comprar tudo
o que podia. Assistindo àquilo, eu pensei que nunca mais ia te ver.
Por isso, fiquei muito surpresa quando o gerente me contou que você renasceria em
outro lugar, a quinze minutos de bicicleta de onde vivera antes. Era a primeira vez que eu
namorava uma loja de conveniência, e não sabia da sua natureza de morrer e renascer várias
vezes desse jeito.
Você renasceu e nós nos apaixonamos novamente. Depois disso eu tive um caso com
uns restaurantes de fast-food, você morreu de novo, várias coisas aconteceram. Na terceira
vez que você morreu, eu já estava acostumada. E até hoje, passados dezessete anos de
despedidas e reencontros, continuo ao seu lado.
Me perguntam toda hora: “Por que você namora uma loja de conveniência? Não acha
ruim não ser uma pessoa?” “Não está cansada, depois de tanto tempo?”. Também tem quem
diga que não é um namoro sério, que deve ser só uma justificativa para eu conseguir material
para escrever. Eu não me incomodo, já estou acostumada. Mas outro dia, quando estávamos
juntas e eu comentei isso de brincadeira, você pareceu meio triste. Então eu disse: “Me
desculpa por ter te contado! Quer que eu vá matar a pessoa que me falou?”. Falei meio de
piada, meio de verdade. “Matar as pessoas não é muito legal. Porque, diferente de mim, as
pessoas não voltam mais depois de morrer”, você respondeu, séria.
Aliás, é raro você deixar seus sentimentos transparecerem no rosto. Não sorri quando
eu faço alguma brincadeira, nem se abala ou fica vermelha quando eu me aproximo de
repente com demonstrações de afeto. Eu achava que, mesmo sem eu dizer, você sabia por que
é que eu gosto de você. Mas outro dia, no meio de uma discussão interminável quando
falamos pela centésima vez em nos separar, até você falou a mesma coisa: “Eu não entendo
por que você me namora…”
Fiquei chocada. E foi por isso que resolvi te escrever. Porque quero que você me
entenda.
Se eu fosse listar todas as coisas que gosto em você, poderia escrever cem páginas e
ainda não seria o bastante. Então vou ser breve e dar apenas um motivo.
O principal motivo pelo qual te amo é que você fez de mim um ser humano.
Todo mundo fala que você não é gente, só que até te conhecer, eu é que não era gente.
Ou, no mínimo, eu era um ser humano que não se saía muito bem como ser humano. Estando
ao seu lado eu me tornei, pela primeira vez, humana.
Você me deu a passagem do tempo, com manhã e tarde e noite, e você me presenteou
com estranhos sapatos para caminhar pelo mundo da “realidade”. Para mim, você foi mágica.
Se não fosse por você, acho que eu continuaria vivendo sem sequer perceber que existe no
mundo esse momento chamado “manhã”.
Você foi o único “normal” imutável na minha vida. Por isso, todos os meus sentimentos
humanos pertencem a você.
Quem sabe a gente acabe mesmo se separando, agora que estou te contando sobre
esses meus sentimentos tão pesados. Porque, apesar de o amor ter me transformado nesse
monstro chamado ser humano, você continua sendo, eternamente, uma loja de conveniência.
Talvez o meu amor tenha crescido demais e seja muito pesado para você.
Às vezes eu penso como seria te perder. Talvez, sem você, eu esqueça novamente como
ser uma pessoa. Tenho certo medo de ser assim tão dependente.
Mas deixe-me ficar ao seu lado só mais um pouco. Você tem uns cantos meio largados,
passa o dia inteiro fazendo uma barulheira irritante — ding-dong, ding-dong, diz que é um
prédio e não pode ir pra lugar nenhum então sempre temos que nos encontrar no mesmo
lugar, as comidas que você me serve dizendo que são caseiras estão cheias de aditivos, de vez
enquanto resolve toda animada arranjar uma máquina de café ou coisa assim, “olha só essa
novidade!”, e me dá o maior trabalho… E além do mais, é verdade que você deixa o senhor do
turno da madrugada e o gerente e todo mundo entrar no seu corpo livremente, e eu fico
desconfiada se isso não é traição. Enfim, acho que você é cheia de defeitos. Mas vai ver meu
amor é uma doença grave, porque para mim esses defeitos é que são seu charme. Então, acho
que é sua obrigação deixar que eu fique ao seu lado até sarar.
Amanhã de manhã, vou te encontrar mais uma vez. Ultimamente caí na rotina e ando
sempre com a mesma calça jeans, mas amanhã vou colocar um vestido novinho. Então, trate
de me esperar bem arrumada e limpe até dentro das geladeiras de serviço.
Aliás, a gente nunca se beijou, né? Acho que amanhã vai ser a primeira vez.
Saudações,
Sayaka Murata
Dezembro de 2014
