Sobre Kitchen
Lui Navarro
Meu primeiro contato com a Banana Yoshimoto foi no primeiro ano de faculdade. Tinha acabado de sair do ensino médio e estava naquela fase do deslumbramento, maravilhado com tudo o que a vida universitária tinha a oferecer. Eu já tinha decidido que iria cursar japonês como habilitação no segundo ano (na Universidade de São Paulo, o idioma da habilitação do curso de Letras é escolhido a partir do segundo ano) e sentia que precisava conhecer mais sobre literatura japonesa. Todo o meu conhecimento de cultura e literatura japonesa tinham origem em algo bem comum: animes e mangás. O único livro de literatura japonesa que eu já tinha lido até então era Musashi; e por motivos óbvios: influência do mangá Vagabond.
Lá estava eu, com 19 anos, na feira de livros da universidade, encarando os estandes das editoras. Fui acompanhado de um amigo e veterano de curso, o Marquinhos, que já estava no mestrado na área de Ensino de Língua Japonesa, e pedi algumas indicações. Ele foi logo falando diversos títulos enquanto explicava sobre os autores, mas parou em um específico, Tsugumi de Banana Yoshimoto. Lembro que ele disse: “Eu acho que você vai gostar dessa autora. E o livro foi traduzido pela Lica-sensei, que vai ser sua professora”. Não pensei duas vezes, comprei o livro encantado com a possibilidade de não só conhecer uma tradutora, como também ter aulas com ela. É um pouco engraçado, mas admito que minha maior motivação para ler o meu primeiro livro da Banana não foi a autora, mas sim a tradutora: Lica Hashimoto, minha futura professora.
Assim que li Tsugumi, chorei copiosamente. Inclusive, essa é uma constante entre eu e a Banana. Sempre choro quando leio os livros dela. Outra autora tinha despertado esse sentimento em mim antes, Clarice Lispector. Essa possível semelhança de tom e sensibilidade entre as duas autoras foi o tema da minha primeira pesquisa acadêmica. Com a ajuda da Lica Hashimoto (já minha professora oficialmente) e Joy Nascimento, escrevi meu primeiro artigo e o apresentei em um congresso de estudos japoneses. Acho interessante incluir um adendo nessa narrativa, pois os cruzamentos da vida são sempre pontos interessantes. Fui apresentado à Joy Nascimento pelo mesmo amigo de antes, Marquinhos, que, assim que soube do meu interesse em estudar Banana, foi logo falando: “Você precisa conhecer a Joy!”. Trocas e anos se passaram, e agora nos (re)encontramos nessa edição de Kitchen, eu como um dos tradutores e ela com o seu comentário na orelha do livro.
Depois dessa minha aventura nos estudos comparados, Lica-sensei comentou sobre a possibilidade de embarcar em uma pesquisa de tradução, ainda focada na Banana Yoshimoto. Para ser sincero, ainda não tinha passado pela minha cabeça trabalhar com tradução, pois não me achava capaz. Depois de ler Tsugumi, fiquei fissurado na Banana e fui logo procurar outros livros, mas poucos tinham tradução para o português brasileiro. Para ter acesso aos livros da Banana Yoshimoto (e de outros autores que conhecia ao longo do curso de Letras), recorria a uma leitura bilíngue um pouco confusa. Ia misturando trechos do original em japonês que conseguia ler, com traduções do mesmo livro em outro idioma (normalmente inglês ou espanhol). Foi em meio a essa exploração que surgiu o projeto de pesquisa sobre Kitchen. Como disse antes, não me sentia seguro para trabalhar com um texto todo em japonês, mas com o incentivo da Lica-sensei, pensei: “Bem, se ela, que é minha professora, além de ser tradutora, diz que sou capaz, então acho que sou”.
Antes de falar sobre o processo de pesquisa e tradução de Kitchen, acho interessante mencionar uma breve primeira impressão da obra. A informação óbvia é de que chorei ao ler pela primeira vez, pois a Banana tem esse jeito de falar de amor e sofrimento de um jeito aconchegante que invade o corpo sem você nem perceber. Mas, com certeza, quem me marcou de maneira irremediável foi Eriko. Essa figura misteriosa, divertida e amorosa me assombrou. Assim como a vida de Mikage e Yuichi foram impactadas e transformadas até um ponto sem volta por conta de Eriko, o mesmo aconteceu comigo. Eu lia e relia a primeira parte do livro, onde Eriko é mais presente, repassando suas falas sob o olhar de Mikage. Na época, acho que não entendi muito bem o motivo desse livro mexer tanto comigo, mas o tempo tem uma maneira interessante de explicar as coisas.
Com o novo projeto de pesquisa, uma nova pessoa surgiu, Fabio. Juntes, iniciamos esse processo de leitura e cotejo do texto original de Kitchen com traduções variadas. Nosso objetivo inicial era identificar como a questão da culinária do texto era abordada nas diversas traduções. Como o próprio título do livro anuncia, a culinária e a cozinha são personagens constantes na obra. Para Mikage, a nossa protagonista, a comida é uma ferramenta potente. Esse foi um ponto que tomamos muito cuidado durante a nossa tradução: tentar transmitir ao leitor brasileiro os significados possíveis daqueles pratos, mesmo para quem nunca os tivesse provado. Foi um trabalho difícil, sendo simplista. Para uma cultura e um povo, a culinária é muito mais do que alimento, é algo que carrega bagagem, e esse é um aspecto essencial de Kitchen. Sabíamos que não podíamos ser superficiais ao abordar a comida no livro, mas também não podíamos inferir demais ou inserir nossas próprias conclusões e interpretações. Eu, Fabio e Lica nos aventuramos na tradução desse texto com muitas conversas, cafés, além de um katsudon delicioso (“pesquisa de campo!”, essa foi nossa desculpa).
Outro ponto de atenção durante a tradução foram os pronomes de Eriko. A maneira como a transição e o gênero de Eriko são tratados no livro poderiam ser progressistas na época do lançamento, mas agora não mais. De novo, entra uma das dificuldades da tradução: explicar sem induzir. Ao longo do livro, a Eriko é tratada ora no masculino, ora no femino ou, como na maioria dos casos, sem uma indicação clara de gênero. Houve um esforço da nossa parte de traduzir o texto como ele é, sem inferências ou deduções.
Visto de fora, pode parecer estranho e complicado fazer uma tradução à três mãos, mas todo o processo foi muito tranquilo. Sempre fomos muito respeitoses com a opinião e o trabalho ume des outres. Falando da minha experiência particular, acho que não teria conseguido finalizar essa tradução sem as diversas trocas que tive com Fabio e Lica-sensei. Entre elus, eu era o mais novo na vida acadêmica, e foi com essas trocas que consegui caminhar pelo processo de tradução de cabeça erguida. Acredito que a construção de um texto é um trabalho coletivo e realizar essa tradução de maneira tão colegiada foi essencial.
Após a finalização do projeto, e da minha própria graduação, a Banana Yoshimoto continuou me acompanhando, junto com a presença de Eriko. Um pouco já mais velho, iniciei meu processo de transição e entendimento do meu próprio gênero. Ao revistar o texto, depois de alguns anos, para enviá-lo à editora, uma sensação inusitada surgiu. Eu já não era mais a mesma pessoa que iniciou aquela tradução. Algumas questões de Mikage e Yuichi ressoavam de maneiras diferentes para mim, mas algo era constante: Eriko. Meu fascínio permanecia inalterado, porém, agora, eu a via como ela era, assim como eu me vejo como eu sou.
A questão de gênero e violência contra pessoas da comunidade LGBT são temas presentes na narrativa de Kitchen, mas elas não servem apenas como propósito de “enredo”. A convivência com Eriko foi essencial para o amadurecimento de Mikage e Yuichi, e acredito que o mesmo se aplica a mim mesmo. E penso que essa seja uma das maiores potências de Kitchen: a capacidade de falar de temas universais, como, amor, luto, família e juventude de maneira atemporal.
Quero encerrar esse breve (longo) texto ressaltando a importância da tradução e do acesso à literatura. Sem a existência de Tsugumi, eu não teria como ter conhecido a autora Banana Yoshimoto. Portanto, finalizo com o meu forte desejo de que muitas outras traduções existam, que elas sejam respeitosas e cuidadosas com o texto de origem, e que essas traduções possam ser janelas de conhecimento para tantas outras pessoas.

