Uma reflexão profunda e poética sobre a natureza do sonho, sua função simbólica e seu papel essencial na constituição da subjetividade humana.
Longe de reduzir o sonho a um simples produto do inconsciente reprimido, como nas leituras psicanalíticas clássicas, em Inteligência do sonho, a autora francesa Anne Dufourmantelle o reconhece como uma força de inteligência dotada de uma lógica própria, de poder visionário e transformador. Desde as primeiras páginas, o sonho aparece como uma presença que vela por nós, que nos instrui na noite e que revela, com delicadeza e intensidade, zonas do real ainda inacessíveis à consciência desperta.
A obra se estrutura em três partes — “Os sonhos”, “Da fantasia” e “A inteligência criadora” — que conduzem o leitor por uma viagem entre filosofia, psicanálise, mitologia, história das civilizações e literatura. Dufourmantelle entrelaça memórias oníricas, fragmentos clínicos, referências culturais e imagens poéticas para mostrar o sonho operando como uma força de conversão: ele desloca a temporalidade, desafia os limites da identidade, propõe sentidos novos para o que parecia opaco ou sem solução. O sonho é, para ela, um espaço de liberdade onde o desejo encontra imagens para se manifestar, mesmo sob a censura da linguagem ou da razão.

Ao longo do livro, a autora dialoga com Freud, Jung, Descartes, Nietzsche, Wittgenstein, mas também com tradições esquecidas ou marginalizadas — o xamanismo, os livros sapienciais do Egito, a literatura medieval, os saberes indígenas. Ela resgata o estatuto sagrado e político do sonho, aquele que narra, instrui e partilha. A experiência onírica é compreendida como uma herança civilizacional e afetiva, lugar onde se revelam tanto as forças de vida quanto as forças da repetição e da morte. O sonho não é apenas pessoal; ele se inscreve em uma memória coletiva.
Inteligência do sonho é uma meditação radical sobre o que significa sonhar em um mundo que valoriza cada vez menos o invisível, a interioridade e o mistério. Para Dufourmantelle, negar os sonhos é empobrecer a vida, recusar sua espessura simbólica e sua abertura ao inesperado. O livro convida, portanto, a uma escuta atenta desse espaço-tempo outro, onde o desejo se trama com imagens, e onde podemos vislumbrar aquilo que, em nós, resiste, transforma e deseja existir de outro modo.
SOBRE A AUTORA
A filósofa e psicanalista Anne Dufourmantelle nasceu em Paris em 1964. Formou-se em filosofia e letras clássicas na Universidade Brown (Estados Unidos) e defendeu seu doutorado na Sorbonne, abordando as noções de inconsciente, transgressão e simbolismo — temas que permeariam grande parte de sua produção teórica.
Com uma formação robusta e transdisciplinar e fortemente influenciada por pensadores como Freud, Derrida e Lévinas, ela desenvolveu uma reflexão que cruzava o pensamento clínico com questões existenciais e políticas.
Dufourmantelle atuou como psicanalista e foi professora na Escola Nacional de Arquitetura de Paris-La Villette. Foi também colaboradora do jornal Libération. Escreveu diversos livros e ensaios, entre eles Éloge du risque (2011), no qual propõe uma defesa filosófica do risco como parte essencial da vida plena.
Faleceu de forma trágica em 2017 — teve um colapso após resgatar duas crianças no mar, em uma praia de Ramatuelle, na Riviera Francesa.
