Quando um escritor usa a autoficção e a metalinguagem em sua obra, a linha entre a realidade e a ficção pode tornar-se tênue. Os usos desses estilos literários fazem com que o autor revisite momentos cruciais de sua vida e os reinterprete, para que nós, leitores, possamos mergulhar e observar de perto os detalhes de sua vida.
O ganhador do Prêmio Nobel de 1994, Kenzaburo Oe, considerado um dos principais romancistas contemporâneos do Japão, emprega a metalinguagem e a autoficção de maneira sofisticada. Em muitos de seus romances, Oe não apenas narra histórias, mas também reflete sobre o ato de narrar. Por meio de personagens que muitas vezes são escritores ou artistas, Oe utiliza a metalinguagem para questionar o próprio papel da literatura na sociedade, bem como as limitações e potencialidades da expressão humana. Quando se trata da autoficção, Oe utiliza seu alter ego para explorar sua própria identidade, suas dúvidas e seus medos.

Recentemente, a Editora Estação Liberdade completou a publicação da “trilogia madura” ou “trilogia autobiográfica” de Oe no Brasil. Composta pelos livros A substituição ou As regras do tagame (vol. 1), O menino da triste figura (vol. 2) e Adeus, meu livro! (vol. 3), todos com tradução direta do japonês por Jefferson José Teixeira, Kenzaburo Oe utilizou esta trilogia para refletir sobre sua própria trajetória, tanto pessoal quanto literária, revisitando suas memórias da infância, da guerra e das transformações sociais do Japão, buscando compreender o impacto desses eventos em sua formação.
No primeiro volume, A substituição ou As regras do tagame (2000), escrito após o suicídio de seu amigo de infância e cunhado, o cineasta Juzo Itami, em 1997, Oe se supera na mescla de elementos ficcionais conjugados com peças da vida real, indo longe na transposição para o romance de personagens existentes, inclusive a figura de seu filho Hikari Oe. Iniciamos a aventura conhecendo o romancista Kogito Choko, alter ego do próprio Kenzaburo Oe.
Depois que o cineasta Goro Hanawa, seu melhor amigo, comete suicídio, Choko começa a procurar respostas por meio de fitas que seu amigo lhe enviou antes de morrer. O que ele encontra é uma série desconexa de discursos sobre tudo, da amizade que eles compartilharam desde a adolescência até as ideias de Goro sobre arte e vida, sua admiração compartilhada por Rimbaud e alguns segredos do passado.

Já no segundo volume, O menino da triste figura, publicado originalmente em 2002, Oe implementa mais um recurso literário em sua narrativa: a intertextualidade. De pronto, Kenzaburo Oe a evidencia no título com uma alusão ao apelido criado por Sancho Pança para se referir a Dom Quixote: “o Cavaleiro da Triste Figura”. Se, por um lado, da poesia consagrada ao texto religioso, as personagens dão voz a Shakespeare, Yeats, Blake, à Bíblia, a poemas clássicos da literatura japonesa, por outro, notamos autorreferências a obras anteriores escritas por Kogito, cujos títulos são — coincidência ou não — muito próximos aos empregados pelo próprio Oe em suas obras.
Em O menino da triste figura, o escritor Kogito Choko, retorna a sua terra natal no interior da ilha japonesa de Shikoku. Kogito toma residência em uma casa da família herdada após a morte recente da idosa mãe e se vê em uma tentativa de remontar próprio passado para escrever uma nova obra literária. Desta vez, contando com a ajuda da espirituosa Rose, uma pesquisadora literária estadunidense, ele deseja escrever sobre o “menino”, uma figura emblemática e intangível que inúmeras vezes ajudou a salvar as pessoas da região. Acompanhado também por alguns conhecidos de longa data, Kogito embarca em uma jornada de descobertas pelo vale e pela floresta, visitando locais e se encontrando com jovens que poderiam dar continuidade às lendas de sua terra natal.

A escrita da trilogia ocupou cinco anos da vida do autor. Em 2005, Kenzaburo Oe publicou o terceiro volume, Adeus, meu livro!, que chegou à Estação Liberdade no começo de 2023, pouco antes de sua morte, dando à obra um tom de melancolia e transformando-a em sua despedida literária.
Já em Adeus, meu livro!, o ganhador do Nobel de Literatura 1994 reúne todas as suas “assombrações” dando voz mais uma vez ao romancista Kogito Choko, agora mais velho e acamado em um quarto de hospital devido a um grave ferimento. Em diálogo com Shigeru Tsubaki, um amigo de infância que volta a conviver com ele, Kogito vai relembrar o que já escreveu, repensar como continuar escrevendo e ter que decidir como manter seu pacifismo perante um mundo tão mudado e violento. Traduz aqui em romance de maturidade seu engajamento público contra o afastamento do Japão de sua constituição antimilitarista.

Em 2005, por ocasião do lançamento de Adeus, meu livro! no Japão, Kenzaburo Oe concedeu uma entrevista ao jornal Le Monde. Ele falou sobre o processo de criação, explicou por que voltava a escrever e discutiu o lugar do Japão no mundo. A entrevista foi republicada pelo jornal Folha de S.Paulo* com tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.
“Ao me aproximar dos 60 anos, percebi que, desde a época em que era estudante, eu havia escrito romances e que minha vida inteira havia se centralizado na escrita. Pensei que, parando, poderia refletir sobre o que foi a essência de minha existência e assim preparar o inverno de minha vida.
A morte de meu amigo, o compositor Toru Takemitsu, em 1996, me instigou a me perguntar, se um dia nos encontrássemos no além e ele me indagasse sobre o que fiz na minha vida, o que eu lhe responderia. E comecei a ler, da manhã à noite. Depois, o desaparecimento de outros amigos queridos me trouxe de volta ao romance.
A escrita dessa trilogia ocupou os cinco últimos anos dos meus 60. A substituição ou As regras do Tagame, o primeiro da trilogia, foi escrito depois do suicídio de meu amigo de infância e cunhado, o cineasta Juzo Itami, em 1997. No seguinte, O menino da triste figura, volto, por meio de um escritor que lê Cervantes.
Adeus, meu livro! é inspirado no poeta e dramaturgo inglês T.S. Eliot [1888-1965], mais particularmente nos Quatro Quartetos, poemas sobre a experiência no tempo e além do tempo. Eu sempre amei essa obra, mas creio que pela primeira vez a compreendi.”
A trilogia de Kenzaburo Oe é um testemunho da genialidade de um dos maiores escritores da literatura japonesa contemporânea. Um mosaico complexo de memórias, reflexões e ficção, onde o autor entrelaça sua vida pessoal com sua obra literária.
Kenzaburo Oe nos deixou em 3 de março de 2023. A partida de Oe é uma perda enorme para os leitores de todo o mundo, mas fica sua magnífica contribuição para a humanidade: uma literatura preocupada em refinar o pensamento, aguçar o sentimento e mostrar caminhos para chegar à paz.
Leia a entrevista completa republicada pelo jornal Folha de S.Paulo com tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0412200517.htm?fbclid=IwY2xjawItSstleHRuA2FlbQIxMAABHZQ47OpWgPH9PyYw1zw7K7NbR-z3H3zirvzg_33ZIPixBa8TW16nZWfS9g_aem_rwm8lSCCeVUO8eQ6rFLzCQ