Nunca fui um grande leitor de contos. Como provavelmente a maioria dos leitores, sempre tive a sensação de que os enredos inesquecíveis, aquelas leituras que vão permanecer na nossa memória, não cabem nas narrativas curtas. Só mesmo os romances, especialmente os tijolões, seriam capazes de nos brindar com tramas e personagens complexos o suficiente para atordoar o nosso imaginário. Claro, com uma ou outra exceção — que, no meu caso, eu costumava reservar às historietas sobre galinhas que Clarice escreve em Felicidade clandestina e aos contos sobre boxe (e redenção) de Jack London que li numa compilação da Benvirá chamada Nocaute. A essa enxutíssima lista de exceções agora acrescento estes três contos — ou “novelas”, conforme a nomenclatura atribuída pela Estação Liberdade — da japonesa Yoko Ogawa: “A piscina”, “Diário de gravidez” e “Dormitório”.
Em tese, são três histórias banais, respectivamente: o dia a dia de um orfanato, contado pela perspectiva da filha daqueles que administram a casa; os nove meses de uma gravidez, vistos pelo olhar da irmã da gestante; e a decadência de um alojamento estudantil, quando uma ex-residente volta ao lugar alguns anos depois a fim de hospedar um primo iniciando a vida universitária. Mas, em todas elas, Ogawa cria desconforto no leitor — sem que saibamos ao certo por que a leitura está nos causando isso. Ficamos com a sensação latente de que o mais importante delas não é aquilo que a autora escreve, mas justamente aquilo que omite — ou deixa nas entrelinhas.
Talvez porque tenhamos o instinto de juntar as peças do quebra-cabeça de acordo com as vicissitudes do que os próprios contextos ou personagens sugerem. Por exemplo, Aya, a protagonista de “A piscina”, é uma garota insegura que nutre uma paixão obsessiva por um dos órfãos da casa, mas imagina não ser correspondida. E uma rejeição amorosa nunca é facilmente assimilável — precisa ser exorcizada de alguma maneira. Já a gestante que protagoniza a segunda novela não consegue comer nada. Tudo lhe dá ojeriza, a ponto de o molho branco do macarrão lhe parecer suco gástrico. Será mero enjoo próprio da gravidez? Em “Dormitório”, o proprietário do alojamento faz cada um dos jovens que hospeda assinar um “contrato” afirmando: “Neste dormitório para estudantes prometo levar uma vida feliz.” O problema é que o sujeito passa longe de ser a melhor personificação da felicidade.
E assim seguimos, tateando no escuro sob essa sensação onipresente de que há algo de macabro à espreita. Falar mais sobre as tramas em si implicaria o risco de spoilers, então me detenho e só enfatizo o convite a essa extraordinária leitura. Mas vale lembrar que esse livrinho com as três histórias compiladas é o quarto título que Ogawa lança no Brasil pela Estação Liberdade — de modo que eu já conhecia seus três trabalhos anteriores. O que mais me impressiona na autora é o ecletismo de seu universo literário, sua capacidade de se reinventar sempre. Vemos desde uma narrativa “convencional”, de trama edificante, em A fórmula preferida do professor — ainda meu livro favorito dela, sobre um encontro de gerações entre um velho flertando com a demência e um menino cheio de vida —, passando pelo thriller O Museu do Silêncio, até a inventiva psicodelia de A polícia da memória, uma parábola sobre a passagem do tempo e a efemeridade.
Nesse sentido, Ogawa destoa de alguns de seus compatriotas notórios, como Haruki Murakami e Sayaka Murata, que a cada novo livro reafirmam a fórmula de suas obras anteriores. Não me entenda mal: amo Murakami e Murata. Ter um estilo de escrita marcante e inconfundível é virtude dos grandes escritores. Meu ponto aqui é apenas que Ogawa é imprevisível, inclassificável, inimitável dentro da sua própria produção. Cada um de seus livros é um mundo peculiar a ser desbravado.
Fábio Fujita
