Olá! Katague aqui, tradutor de Baba Yaga no yoru ババヤガの夜, da autora Akira Ōtani. Venho apresentar um breve relato sobre os bastidores desta que foi a minha estreia na tradução comercial, sob o título A noite de Baba Yaga.

Nunca havia passado pela minha mente traduzir uma obra recente como Baba Yaga no yoru, de 2020, com tradução para o inglês, The Night of Baba Yaga, de Sam Bett, publicada em 2024. Meu interesse sempre esteve voltado em traduzir obras um pouco mais antigas — das eras Shōwa, Taishō, Meiji… quem sabe até mais antigas, dos períodos Edo, Muromachi… Heian, talvez? —, de forma que, quando recebi a proposta de traduzir Baba Yaga, não fiquei particularmente empolgado. Entretanto, ao pesquisar sobre a autora e começar a traduzir, tive uma boa e divertida surpresa e acabei imergindo intensamente na história.
Akira Ōtani, mulher lésbica declarada num Japão conservador, tem o histórico de abordar questões de gênero em suas obras e mantém essa linha crítica em Baba Yaga no yoru. Na obra, temos duas personagens principais: Yoriko Shindō, personificação da potência, treinada para derrubar sem escrúpulos qualquer um que aparente ser uma ameaça; e Shōko Naiki, a jovem filha de um chefe da Yakuza, moldada ao ideal de “mulher” que seu pai carrega.
Tentei, então, ter um cuidado especial com essas questões caras à autora. Por exemplo, não há gênero na língua japonesa em geral, a menos que se queira especificar ou que a natureza da palavra carregue a noção de gênero em si. Assim, é como se a palavra inu 犬 indicasse o animal Canis lupus sem atribuir o gênero intrínseco que as palavras “cachorro”, “cachorra”, “cão” e “cadela” possuem. Principalmente quando Ōtani compara Shindō a algum animal potente, experimentei utilizar palavras ou artigos que deixassem evidente a natureza feminina deste, por mais que o editor de texto, vulgo Word, me sugerisse “correções” (rs). Há outras questões de gênero em partes posteriores do livro, às quais também procurei estar atento — e peço desculpas antecipadas caso algum deslize apareça —, mas prefiro não as abordar aqui por motivos de narrativa. 🙂
A autora tem um estilo bem vívido de escrita. Por um lado, ela é concisa ao descrever as situações de pancadaria, e uma das dificuldades nesses trechos foi a repetição de palavras em japonês, algo aceitável se comparado ao português. Encontrar a maior quantidade de sinônimos possíveis para “soco” e “chute”, além do cuidado de dosar e espaçar as ocorrências textualmente próximas de termos como estes, tomaram um tempo considerável no processo de tradução. Por outro lado, ela se alonga na medida certa ao narrar a interioridade das personagens, dando origem a sentenças subordinadas complexas que se assemelham a quebra-cabeças com suas peças a serem encaixadas. Curiosamente, é possível notar o uso recorrente de alguns ideogramas hoje já incomuns e que possuem equivalentes mais atuais na língua moderna japonesa. Seria uma tentativa de evocar algum passado? Ainda tratando de ideogramas, há trocadilhos irreproduzíveis no português, que envolvem leituras homófonas de caracteres diferentes, e essas nuances acabaram sendo explicadas por meio de notas de rodapé; algo que eu pessoalmente adoro, mas, dada a natureza do romance ficcional, entendo quem desgoste.
A tradução de Sam Bett para o inglês é muito interessante e fidedigna, principalmente quando acompanhamos o histórico de escolhas editoriais no mundo anglófono de modificar ou cortar trechos do original com base no que se imagina ser o gosto do público leitor. São consideráveis as soluções engenhosas desenvolvidas pelo tradutor, que, diferente de mim, já teve a oportunidade de estar em contato direto com a autora, e confesso ter aproveitado uma ou outra. Mas, é curioso: tendo naturalmente buscado soluções para os quebra-cabeças textuais avaliando o original em japonês, sinto que, enfim, nossas traduções se consolidam com naturezas um pouco diferentes. Talvez algo inerente às nossas línguas maternas? Talvez algo em relação ao par domesticação-estrangeirização abordado pelo teórico da tradução Lawrence Venuti? Não sei dizer. Minha intenção ao traduzir Baba Yaga no yoru foi seguir a linha de um texto que tirasse o público leitor do Brasil e os transportasse para o Japão e seu submundo de párias. Se fui bem-sucedido nessa jornada, cabe a quem lê dizer. Estejam certos de que, de minha parte, atenção, cuidado e apreço não faltaram durante o processo tradutório. E este, agora concluído, me traz grande orgulho pela oportunidade de dar voz inédita, na nossa bela língua portuguesa, a uma autora tão autêntica e socialmente crítica. Espero, de verdade, que vocês consigam embarcar na história vivenciada pelas as protagonistas e aproveitem a leitura!
Gustavo Katague
Editor-adjunto
