“Penso em Ivan.
Penso no amor.
Nas injeções de realidade.
No seu efeito que dura apenas algumas horas.
Na próxima injeção, a mais forte.
Penso em silêncio.
Penso que é tarde.
É incurável. É tarde demais.
Mas sobrevivo e penso.
E penso: não será Ivan.
O que quer que aconteça, será diferente.
Vivo em Ivan.
Não sobrevivo a Ivan.”
Quando o amor se torna patologia? Quando ele passa de uma devoção apaixonada para obsessão? Seria quando ele o impede de dormir, de comer? Ou quando você passa a maior parte do tempo sentado ao lado do telefone, esperando ele tocar uma certa quantidade de vezes antes de atender, enrolando os dedos pelo cabo milhares de vezes só para ouvir uma voz? Quando seus sonhos, ambições e devaneios passam a ser dirigidos para a felicidade de uma única pessoa, que os turva de tal jeito que não parece possível que ela tenha defeitos, e que todas as ofensas feitas em sua direção sejam apenas exageros imaginários. Quando seu nome não merece ser mencionado, apenas os daqueles que a cercam. Quando parece que todos os momentos do mundo e o tecer do universo o levaram unicamente a essa pessoa, e que por isso, talvez, você nunca tenha merecido coisa melhor.
Malina, de Ingeborg Bachmann, nos traz a perspectiva feminina de uma narradora que não é denominada e nos leva para dentro de sua mente, fragmentada e lúdica. No início do romance ela nos narra sua fixação avassaladora por um homem chamado Ivan e fala sobre o relacionamento entre os dois, onde já fica bem claro que esse amor é, muitas vezes, unilateral.
Enquanto a personagem principal calcula suas ações, pensa em qual maquiagem vai usar ou até tenta mudar seu gosto literário só para agradá-lo, não existe qualquer esforço do outro lado, muito pelo contrário. Ivan parece ser sempre um pouco frio em relação à narradora, ele se aproxima, a chama para sair, mas é sempre por um tempo limitado. As suas ligações, pelas quais ela aguarda ansiosamente, são aleatórias e sem sentido (ainda que sua transcrição e manobra sejam divertidas de ler). Fica subentendido também que Ivan tinha uma família antes de se envolver com a narradora, tendo dois filhos, Belá e András, e uma (ex) esposa, que ele convenientemente nunca menciona. Não é difícil perceber que ele destrata a personagem principal, diminuindo-a constantemente durante suas partidas de xadrez, questionando seu trabalho e sua inteligência e deixando de reconhecer qualidades como sua intensidade e criatividade no jogo. A narradora não expressa nenhum sentimento negativo em relação a esse comportamento, muito pelo contrário, ele passa quase despercebido, como pistas espalhadas para que o leitor perceba que talvez nem tudo seja mil maravilhas como ela descreve. A violência dele é sutil e ocorre por gestos que, em meio ao carinho e à paixão, passam por distrações.
Essa permissividade da narradora fica evidente, por exemplo, quando Malina, que dá título ao livro, e que mora com a personagem em um romance complicado, lhe pergunta por que ela está sentada em vez de fazer um café para eles. Nesse momento, ela pensa em lhe falar algo terrível mas acaba simplesmente atendendo seu pedido, indo de pronto fazer o café. Esse aspecto da permissividade está intrinsecamente ligado à forma como ela imagina a sua relação com os homens que a cercam. Em seu fluxo de consciência, ela parece misturar as memórias de abuso sofrido pelo pai com os traumas da guerra, e essa junção acaba refletindo em como ela lida com os seus relacionamentos. Seu pai existe como a personificação do seu trauma, ele concentra uma forma de autoridade destrutiva que atravessa o corpo da narradora e retorna como imagem, pesadelo e ameaça constante. Ela recorda dos horrores infligidos por ele, que incorpora um símbolo das dores da protagonista, sendo retratado como o centro simbólico de toda sua dor, que irá ser carregada nos seus relacionamentos futuros — uma sombra da qual ela não pode escapar. Algo que fica muito evidente na passagem em que o próprio pai a prende em uma câmara de gás, e ali ele se torna fruto dessa ruminação interna e externa, que mistura os espectros da guerra com as violências que sofreu.
Nos devaneios em que ele está presente, a linguagem se fragmenta ainda mais, como se a narrativa só pudesse avançar aos solavancos, assim como as memórias que a narradora tem dificuldade de lembrar, e que devem ser reerguidas com a ajuda de muita reflexão consciente. Em contraponto, outro homem aparece como um tipo de herói ou messias em sua mente, como podemos ver em uma passagem de devaneio, na qual a narradora transcorre sobre uma princesa que é sequestrada e mais tarde é salva por um cavalheiro — nesse caso, Ivan.
Dentro dessas dinâmicas, enquanto Ivan é o herói e seu pai é o terror, Malina surge mais atrelado à realidade e a um papel de mediador dessas memórias e sonhos. Ele ganha um papel muito mais ativo no segundo e terceiro capítulos, é um personagem masculino à parte. Antes citado brevemente de forma misteriosa, o leitor não consegue ter um entendimento completo de quem ele é dentro da história. Um colega de casa? Outro namorado? Um fantasma que apenas a narradora parece enxergar? Na verdade, Malina é um conjunto de todas as denominações acima.
Apesar de existir um debate sobre Malina não ser real, mas sim se tratar de um alter ego da narradora, ou até mesmo uma representação do seu relacionamento com homens em geral. Ele existe aqui às vezes como um amigo, alguém que tem carinho pela narradora, que tira sua maquiagem quando ela está cansada demais, e que preza pelo seu bem-estar, trazendo cuidado e autopreservação. Ele faz perguntas a ela — retóricas, pois ele já sabe todas as respostas para elas. É como se ele estivesse ajudando-a a organizar suas memórias, a identificar o mal que ela sofreu. Por outro lado, ele também serve como outro sintoma de seu trauma, sendo uma figura que tensiona a relação da personagem com o mundo real, com a normatividade da razão, algo que também a fragiliza ao expor sua condição nesse mundo. A narradora se vê, portanto, entre a tentativa de mudança, para que sua vida se alinhe e seu passado seja enfrentado, e um ciclo de violência ininterrupto, que é repetido pela presença masculina. Ela tenta lidar com esse ciclo, algo que se destaca entre trechos como o seguinte diálogo:
“Malina. Mas você terá que agir, terá que fazer alguma coisa, terá que aniquilar todas as pessoas em uma.
Eu eu é que fui aniquilada.”
É perceptível que Malina tenta transmitir para ela a necessidade de aniquilar esses traumas, essas pessoas, e se encontrar. Porém, uma coisa que ele não percebe é sua própria função nessa aniquilação, com sua atitude racional demais, fria demais, distante em muitas maneiras. A narradora lhe conta histórias aparentemente desconexas, como sua relação com os carteiros que não entregam cartas, mas que funcionam como comentários diretos sobre como ela se sente perdida e sem possibilidade de comunicação real. Cartas não chegam, textos são destruídos, objetos desaparecem. Esse isolamento a leva a aceitar fazer um café, a se entregar à melancolia e entrar por uma fresta na parede, enquanto Malina atende o telefone e afirma, com tranquilidade absoluta, que ali nunca viveu nenhuma mulher. Ele apaga a narradora e, junto das outras figuras masculinas que permeiam sua história, a encaminha para seu assassinato.
Por fim, em vez de seus sonhos de amor premeditado, sua vida parece ter estado sempre fadada a esse momento, a uma melancolia por nunca atingir a felicidade nos relacionamentos, pois nunca soube como levá-los para frente, ou achava que não merecia saber, pois eles seriam eternamente manchados pelo seu pai, pela guerra e por um mundo estruturado por violências que não permitem que ela exista como sujeito. Apesar do que pode parecer, a narradora não some por não saber conduzir seus relacionamentos, nem por não merecer felicidade, e sim pela dificuldade de sustentar uma existência própria dentro de um universo em que sua voz é constantemente relativizada, corrigida ou absorvida. E assim ela sente que nunca poderia escapar da sombra de seu passado, de modo que seria mais confortável fazer sua existência caber uma pequena fissura na parede.
Clara Garcez Maas Rocha Cunha, é estudante de Letras na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, onde estuda principalmente literatura alemã e inglesa.

Muito bom, amo esse livro
Excelente
Muito bom. Parabéns! Agira vou ler.
Muito bom, querendo ler esse faz tempo
Belo texto, fiquei interessada acerca dessa relação com o pai e a guerra, não li o livro mas lembro de uma cena no filme onde o pai da personagem aparece vestido de nazista. Realmente me parece que essa é uma obra que pensa a mulher em meio ao apagamento de sua identidade.