Hiromi Kawakami está de volta com sua escrita onírica e surrealista, intercalada com cenas do cotidiano
Neste romance psicológico, acompanhamos a perspectiva de Kei, uma mulher de meia-idade que há anos carrega um trauma causado pelo sumiço inexplicável do marido. Desde então, morando com a mãe e a filha em Tóquio, ela se encontra suspensa entre uma vida cotidiana, de trabalho e cuidados filial e materno, e divagações acerca do paradeiro do ex-companheiro. Em um momento de escape, ela decide embarcar num trem e, como que por acaso, mas também talvez atraída pelo local, acaba descendo em Manazuru, uma cidade costeira onde a sensação de estar sendo seguida por algo se intensifica.
Definir o que a segue ali é, de início, difícil até mesmo para ela, que entretanto acaba por se tornar íntima desta que parece ser uma habitante espectral do outro mundo. Entre diálogos que por vezes parecem se passar apenas dentro de sua própria mente, Kei se descobre em uma jornada cujo objetivo é sair de seu labirinto interior, entrando em paz com fantasmas do passado e reafirmando a essência de seu ser.
Em Manazuru, além de exercer o ato da escrita como se costurasse uma colcha de retalhos, na qual a voz narrativa em primeira pessoa é por vezes entrecortada e remendada por pensamentos intrusivos da própria personagem principal, Hiromi Kawakami explora o conceito de kamikakushi 神隠し, um “desaparecimento misterioso” e de causa divina conforme sugere o ideograma 神 em sua composição, relembrando que a interpretação daquilo que soa sobrenatural é muito mais idiossincrática do que senso comum.
Por meio de um estilo poético que abraça o surreal, uma ternura silenciosa emerge desses momentos sombrios. Manazuru é uma meditação sobre a memória, uma exploração profunda e precisamente delineada das relações entre amantes e familiares.

Trechos
“Achei que poderia ser algum espírito do oceano que estava me seguindo. Meu marido amava o mar. Sem me preocupar, continuei caminhando em direção à ponta da enseada.
Estava ofegante. Provavelmente por andar depressa. Minha pequena bolsa de pano, tudo que trazia comigo, balançava ao meu lado. Comprei uma garrafa de chá verde na máquina automática. Cheguei a ficar em dúvida entre frio ou quente, mas acabei escolhendo o quente. Por um tempo, andei carregando a garrafa. E, de súbito, a coisa que me seguia até então se afastou.” [p. 15]
“Será que meu marido queria morrer?
Ou será que sumiu por querer viver?
Viver ou morrer, talvez essas coisas não fizessem parte de seu pensamento.” [p. 18]
“Decidi me apaixonar por ele. Quando senti que seria capaz, tomei a decisão de amá‑lo. Ele não se esquivou. Deixei o fluxo dos meus sentimentos seguir na direção de Seiji. É o meu jeito de amar. Tanto as emoções mais intensas quanto as mais tênues diretamente se dirigiam, ou melhor, fluíam para ele. Eu era grata por ele não recusar. Depois que Rei desapareceu, perdi o chão. Não sabia aonde canalizar meus sentimentos. Ao perder o norte, corro o risco de sequer saber onde me encontro. É semelhante ao medo diante da incapacidade de saber se estamos subindo ou descendo o rio, para onde as águas seguem. ” [p. 30-31]
