Em 25 de janeiro, celebra-se o centenário de nascimento de Ingeborg Bachmann, uma das figuras mais importantes e complexas da literatura de língua alemã do pós-guerra. Parte do Grupo 47, Bachmann construiu uma escrita marcada pela melancolia, pelos fragmentos de seu passado e pela reflexão radical sobre a linguagem. Sua escrita investiga, com intensidade poética, temas como identidade feminina, violência, amor e seus traumas.
Nascida em Klagenfurt, Áustria, em 1926, Bachmann escreveu uma tese de doutorado dedicada a Heidegger e Wittgenstein. Trabalhou inicialmente como roteirista de radionovelas, mas foi como poeta que alcançou reconhecimento imediato. Ao longo da carreira, escreveu contos, libretos de ópera, traduções e um único romance.
Sua carreira literária foi impulsionada pelo escritor Hans Weigel e pelo círculo literário conhecido como Grupo 47, do qual participaram nomes como Günter Grass, Heinrich Böll, Paul Celan e Peter Weiss. As correspondências que manteve com Max Frische Paul Celan, publicadas décadas depois, revelam não apenas relações afetivas e intelectuais intensas, mas também, de acordo com a própria Bachmann, discussões sobre forma literária, política, luta pelo reconhecimento feminino dentro de uma sociedade patriarcal, entre outros temas.
“Ingeborg Bachmann é a primeira mulher da literatura do pós-guerra, no espaço de língua alemã, a retratar, por meios radicalmente poéticos, a continuação da guerra, da tortura e da aniquilação na sociedade e nas relações entre homens e mulheres.” — Elfriede Jelinek, dramaturga e escritora austríaca, Prêmio Nobel de Literatura (2004)
Seu único romance, Malina, originalmente publicado em alemão em 1971, foi o primeiro volume de uma trilogia intitulada Maneiras de morrer, nunca concluída. A obra, publicada no Brasil pela Editora Estação Liberdade, possui uma atmosfera enevoada e profundamente poética. O livro é narrado por uma mulher que, através de memórias e sonhos, expõe traumas íntimos, a violência masculina e um peculiar triângulo amoroso. Bachmann, de vida tão trágica, opera um salto mortal neste romance que virou as letras austríacas de ponta-cabeça.
Na edição da Estação Liberdade, o cuidado editorial também se reflete no projeto gráfico. A designer Ruth Klotzel, responsável pela capa, optou por um acabamento com textura, em sintonia com a densidade do texto.
“Seria impossível fazer uma capa festiva para ‘Malina’.
Lendo o texto, antes de compor a capa, me vi enredada em um ambiente melancólico, sensível e perturbador.
Definida uma foto de Ingeborg para a capa, linda, com a fronte lisa e um leve sorriso nos lábios, estava claro que era a imagem perfeita para ilustrar a força e introspecção que o texto sugere. Um plano muito fechado no rosto, a cor profunda da noite, o contraste do laranja aceso, quase ácido.
Intensa. É assim que a defino. E foi o que tentei transmitir no close da imagem, na tipografia e nas cores da capa e no toque do papel e acabamento.” — Ruth Klotzel, designer
Sobre o livro
Em Malina, Bachmann convida o leitor a um mundo estendido aos limites da linguagem. Uma narradora, que trabalha como escritora em Viena, está dividida entre dois homens: vista através do prisma basculante da obsessão, ela viaja em profundidade dentro das próprias loucuras, ansiedades e genialidades. Malina explora o amor, as várias faces da morte, a raiz do fascismo, a paixão.
Bachmann conta a história de vidas dolorosamente entrelaçadas: a narradora, assombrada por memórias aterrorizantes de seu pai, vive com o andrógino Malina, um homem inicialmente distante e frio que acaba se tornando uma influência ameaçadora. Malina serviu de modelo para muitos escritores por ser tão rico não só em conteúdo, mas também em forma. Os leitores encontrarão aqui uma prosa descritiva, narrativa, poética, assim como poesia em versos, diálogos dramáticos à maneira de peças teatrais, em uma viva metamorfose narrativa.
A morte prematura de Bachmann, em decorrência de ferimentos sofridos em um incêndio em seu apartamento, interrompeu definitivamente o projeto da trilogia. Ainda assim, Malina permanece como uma obra plena em sua potência literária, um livro que expõe, com rigor e lirismo, a violência estrutural inscrita nas relações entre homens e mulheres.
